Num pequeno galpão nos arredores de Nairóbi, Wycliffe Okwara nos recebeu no espaço onde desenvolve seu trabalho. A estrutura é simples e funcional, afastada da rua principal, e serve como ponto central onde diferentes partes de sua obra se encontram.
Wycliffe é originário do oeste do Quênia, mas construiu sua vida e seu trabalho em Nairóbi. Ele é casado com Winnicaster, que também trabalha em casa no mesmo setor, e juntos têm uma filha de 13 anos, Tabitha. Eles trabalham lado a lado há mais de uma década, conciliando a vida familiar e a geração de renda na mesma economia informal.
Sua entrada no ramo não foi planejada. Depois de terminar os estudos, ele tentou encontrar um emprego formal, enviando currículos sem sucesso. Enquanto isso, começou a ajudar o pai, que também era artesão e trabalhava em casa. O que começou como uma solução temporária gradualmente se tornou permanente. "Decidi: 'Vou começar ajudando meu pai enquanto espero por essa oportunidade'. Mas ela nunca chegou", disse ele. Ele trabalha no setor desde 2002. Após o falecimento do pai em 2016, Wycliffe assumiu o negócio e continua a administrá-lo com o mesmo nome escolhido pelo pai: Mr. Happy & Cheap Curios.
“Os sapatos estão, na verdade, desmontados. Cada um faz a sua parte e depois juntamos tudo”, explicou Wycliffe.
O grupo produz com base em encomendas de compradores atacadistas e para seu próprio estoque, que vendem diretamente aos consumidores. A Wycliffe leva regularmente seus produtos aos mercados Maasai, que geralmente são realizados em estacionamentos de shoppings. No entanto, o acesso a esses mercados tem um custo, já que os vendedores precisam pagar pelo espaço. Para muitos trabalhadores, isso nem sempre é viável.
“O primeiro desafio, na verdade, são os mercados para os nossos produtos. Algumas pessoas não têm condições de pagar as taxas, então dependem apenas de alguém que apareça na loja”, disse ele.
Como a oficina fica longe da estrada principal, atrair clientes diretamente é difícil. A visibilidade online ajuda, mas o acesso a compradores regulares continua limitado. Ao mesmo tempo, a concorrência de cópias mais baratas e de qualidade inferior de seus designs afeta sua capacidade de vender seus trabalhos originais.
As condições de trabalho representam outro desafio. Embora a Wycliffe tenha acesso a um pequeno galpão alugado e a algumas máquinas básicas, muitos outros trabalham ao ar livre sem abrigo. As intempéries podem interromper completamente a produção, especialmente para aqueles que trabalham sob árvores ou em espaços abertos. Mesmo dentro do galpão, interrupções como cortes de energia afetam a produtividade, principalmente durante as etapas de acabamento que exigem eletricidade.
Apesar dessas limitações, Wycliffe vê seu trabalho como algo mais do que um meio de subsistência pessoal. A oficina conecta diversas pessoas — fornecedores, artesãos e outros trabalhadores que atuam em suas próprias casas e estão envolvidos em diferentes etapas da produção. Para ele, essa estrutura compartilhada é essencial.
“Costumo dizer-lhes que esta oficina é deles, não minha. Precisamos uns dos outros. Não consigo trabalhar sozinha com mil pares.”
A entrada para a HomeNet Kenya representou uma mudança na forma como Wycliffe e seu grupo entendiam seu trabalho. Antes, trabalhavam individualmente, focados em ganhar o suficiente para sustentar suas famílias, sem um senso mais amplo de reconhecimento ou direitos.
“Antes, não sabíamos que os trabalhadores em regime de teletrabalho precisavam ser reconhecidos pelo governo”, disse ele. “Agora sabemos que, com o reconhecimento, podemos até negociar.”
Por meio da organização, eles começaram a participar de reuniões e a interagir com representantes do governo. Fazer parte de um coletivo tornou mais fácil expressar suas preocupações e defender suas necessidades.
“Se eu ligasse para um funcionário do governo individualmente, seria difícil”, explicou Wycliffe. “Mas se estivermos em grupo, eles terão que nos ouvir.”
Fazer parte de um grupo maior também abriu acesso a novas oportunidades. Depois que a pandemia de COVID-19 interrompeu os mercados e reduziu as vendas, alguns grupos, apoiados pela HomeNet Kenya, começaram a explorar fontes alternativas de renda, como hortas domésticas, criação de aves e apicultura. Essas atividades ajudaram a gerar renda adicional e a reduzir a dependência de mercados instáveis.
Além do apoio econômico, a organização também contribuiu para um maior reconhecimento. Wycliffe descreveu um momento durante uma reunião internacional em que viu trabalhadores de diferentes países compartilhando experiências semelhantes.
“Eu conseguia ver pessoas da América do Norte, do Nepal, do Brasil… e pensei: 'Isso é grande'. Me fez sentir que não estou sozinha. Trabalho em casa é trabalho de verdade e algo para se orgulhar.”
Esse senso de conexão reforçou o valor do trabalho deles, não apenas como fonte de renda, mas como parte de uma rede maior de trabalhadores que contribuem para suas comunidades e economias.
De volta ao galpão, a produção continua por meio de coordenação, esforço conjunto e adaptação aos desafios diários. Embora as condições permaneçam difíceis, o trabalho é sustentado por uma combinação de habilidade individual, organização coletiva e reconhecimento crescente de sua importância.